“Performative reading”: entre a seriedade e o exibicionismo

Marisa Midori fala em sua coluna da nova mania que está tomando conta das redes sociais

 19/09/2025 - Publicado há 7 meses     Atualizado: 22/09/2025 às 7:21
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Livros servem como objetos de exibicionismo? É sobre isso que a professora Marisa Midori fala em sua coluna desta semana, tratando de um tema que tem tomado conta das redes sociais: a chamada performative reading, ou em tradução livre, “leitura performática”. “Outro dia eu conversava com um jornalista sobre performative reading, temática que virou a trend do momento, para falar na linguagem dos influencers, e eu me lembrei de uma história contada por Chico Buarque. Ele diz em uma entrevista que, quando era um jovem estudante na FAU, gostava de pegar uns volumes grossos de literatura universal para se exibir no corredor da faculdade. Até que um dia alguém disse: você não lê literatura brasileira?. Talvez ele nem estivesse lendo o livro naquele momento. Talvez fosse só um gesto performático. Também foi um gesto performático, entre jovens comunistas na China, carregar o livro de Mao Tsé Tung. Como, não faz muito tempo, jovens brasileiros saíam nas ruas com uma pequena brochura vermelha, da história do PT, como uma forma de afirmar a importância do partido, no momento de ascensão da extrema direita ao poder”, lembra a colunista.

Mas a performative reading, lembra Marisa Midori, tem sido muito criticada, pois se trata de um comportamento exibicionista, que não tem nada a ver com a leitura, que é uma atividade vista como individual, intimista. “Em primeiro lugar, eu fico mesmo muito intrigada quando grandes marcas de moda e jovens fazem questão de exibir seus gostos pelo livro e pela leitura. Será que o mundo paralelo das redes sociais tem incomodado tanto que virou chique ser e ou parecer inteligente?”, questiona ela. “Por outro lado, há movimentos mais sérios de mobilização por meio dos livros. Lembremos de Indignez-vous, de Stéphane Hessel. Esse senhor, falecido em 2020, um ex-resistente francês, em pleno século 21, chama a juventude, ele clama ao mundo todo, na verdade, a se indignar contra as injustiças sociais e a destruição do planeta. Estamos em 2010 quando ele publica um breve ensaio, intitulado justamente Indignez-vous, por uma pequena casa editorial”, relata a professora. “A brochura ganha corpo, com tiragem de 200 mil exemplares na França, será vertida para mais de 30 idiomas e, a partir de Madri, em 2011, uma grande massa sai às ruas para demonstrar sua indignação. O que eles carregam? A brochura de Hessel. Mais de 4 milhões de exemplares serão produzidos no mundo. Portanto, engana-se quem pensa que o livro é um objeto passivo. Livro é símbolo de força, de luta e de indignação. O que talvez nos falte nos dias de hoje”, finaliza Marisa Midori.


Bibliomania
A coluna Bibliomania, com a professora Marisa Midori, vai ao ar quinzenalmente, sexta-feira às 9h00, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP,  Jornal da USP e TV USP.

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